quarta-feira, 17 de março de 2010

Avó

A minha avó Júlia tem 82 anos, o meu avô faleceu após 50 anos de casamento, de um dia para o outro, sem terem tempo de se despedir de uma vida em comum, tinha ela 70 anos. Depois disso já teve um cancro na mama, fez uma mastectomia radical modificada, fez sessões de radioterapia e já esteve algumas vezes internada, vezes essas em que chegou a estar muito mal, em que já chorei a pensar que a perdia mas ela revela-se sempre mais e mais forte do que a julgamos. Gosto dela, não só porque é minha avó mas pelo que ela tem demonstrado nestes últimos 12 anos. A minha avó não vai para o lar porque isso é para velhos, gosta de acordar tarde e ir ao cabeleireiro e acho que ainda não perdeu o bichinho de ir aos Açores, isto porque entretanto foi à Madeira. Tem alturas boas e alturas más, depende da bronquite asmática e da artite reumatóide mas outra coisa que ela não gosta é de bengalas e por isso só nos dias em que está mesmo mal e têm de ir à rua é que a leva. Faz o melhor arroz doce do mundo (desculpa lá mãe), os melhores pastéis de bacalhau (os únicos que eu como) e a melhor carne assada. Dela herdei não as especialidades culinárias mas a ruindade porque toda esta fibra dela advém, como lhe digo a rir, da ruindade. Sim, a minha avó não é a tipíca avó boazinha, não que seja má, mas é ruim, se ela acha que tem razão ninguém a convence do contrário, se eu não lhe telefono, ela não me telefona e se eu e o meu pai deixássemos ela daria a sua opnião sobre tudo e nós teríamos invariavelmente de fazer o que ela quisesse.
No trabalho, sou conhecida pelo apelido dela e não o escolhi por acaso, porque quando a lágrima tá quase a cair, não são raras as vezes em que penso nela e mordo o lábio a pensar "eu sou forte como tu" pode ser estranho mas não tenho lembranças da minha avó a chorar, para mim o meu avô era coração (grande) e a minha avó é a razão.
Este texto surge porque após 2 meses sem arranjar tempo para ir visitá-la e após dezenas de "recados" que ela enviou pelo meu pai relativamente à minha ausência, consegui ter 5 minutos para ir vê-la e soube-me bem. É bom entrar lá em casa, encontrá-la sentada no sofá e enchê-la de beijos e ver o ar dela escandalizada quando digo que quero ficar doente com uma pneumoniazinha. Foi bom ouvir as cusquices dela enquanto revirava a casa à procura da senha para a declaração do irs, que ela não sabe onde pôs. E é bom dizer-lhe "porta-te bem avó, tem juízo, janta" e ouvi-la dizer "aparece mais vezes, não te esqueças da avó".
És grande avó, muito.

1 comentário:

  1. Essa ruindade tinha de ser genética.

    Mas é essa ruindade que não te deixa fraquejar, que te põe sempre um sorriso na cara mesmo quando o estomâgo tem um nó enorme.

    E parabéns à Avó por isso.

    Beiju minha maria

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