sábado, 29 de junho de 2013

29 de Junho

Obrigada, nunca te agradeci não ter sido naquela tarde, enquanto nós lá estávamos. Fizeste-me a última vontade, nem parece teu. 

Lembro-me, claramente, de não ter conseguido sair a horas, no dia anterior, quando cheguei ao lar já tinha acabado a hora das visitas, e ter metido na cabeça que na 4f saía a horas, independentemente de tudo, e saí. Cheguei à estação e sem termos combinado, o pai ia a passar para também te ir ver, não estava nos meus planos, queria apanhar-te sozinha para te picar, para chorar se me apetecesse. Tivemos os dois contigo, a visita toda, a última visita, os últimos a visitarem-te. Passei a visita toda a pedir-te para continuares connosco, para não acontecer nada enquanto estávamos ali. À saída encontrámos duas enfermeiras que nos disseram que estavas a respirar melhor e eu nunca te tinha ouvido respirar tão mal. Se calhar foram as mesmas, que uns dias antes, pediram à mãe para levar uma roupa tua para o lar, para "alguma eventualidade". Entrámos no elevador, comentámos a "velhota 'tá bera", naquela nossa linguagem, enquanto o pai me passava a mão pelo cabelo, aí foi mais difícil não chorar (mas eu sou muito forte). Depois de jantar, fomos arejar e beber uma ginjinha, enquanto comentávamos que quem nos visse ia dizer que não tínhamos coração, valha-nos que gostamos da fama de maus. Na 5f, pensei que estava a acordar para ir trabalhar mas o telemóvel tocou, quando estava quase de saída, e tive de acordar o pai com a noticia que não queria ter ouvido.

Ah espera, não me fizeste a última vontade, morreste-nos, como sempre tinhas de levar a tua avante!

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